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Validade e Fidelidade na Investigação Educativa

Posted by J L em Fevereiro 21, 2007

Em termos históricos a observação participante foi introduzida pela Escola de Chicago nos anos 20, no entanto, a literatura também refere que a tradição individualista anglo-saxónica inaugurou a prática do trabalho de campo. O primeiro investigador de campo com observação participante no terreno foi o polaco-austríaco, inglês, Bronislaw Malinowski (1913-1922), o qual questionou se a família nuclear era ou não universal.

Este e outros trabalhos que se seguiram foram duramente contestados pelas pesquisas experimentais e considerado um tipo de conhecimento não praticável, por isso este sistema de práticas de conhecimento foi abandonado durante algumas décadas.

No ressurgimento da observação participante, o investigador não podia agir senão na base dum raciocínio dedutivo porque já se tinha constatado que o uso das teorias ou das induções tinha sido um desperdício, ou uma etapa desnecessária. Surge, por um lado, a necessidade de observar e observar dedutivamente e, por outro lado, a definição do que é que deve ser observado e porquê.

A primeira tendência dum investigador de campo é acreditar no que as pessoas lhe relatam porque, no início, não tem outro referente. Sem escutar cuidadosamente as histórias e os contextos culturais, sem saber o que se faz, quando, como, onde e com quem, não seria possível interpretar os fenómenos da investigação.

A observação participante é obtida por meio do contacto directo, frequente e prolongado com os actores sociais e os seus contextos culturais, no entanto, isto não é suficiente para compreender e explicar o trabalho desenvolvido, este exige cuidados para garantir a fiabilidade e pertinência dos dados e para eliminar impressões meramente emotivas, deformações subjectivas e interpretações fluidas, sem dados comprobatórios.

Se queremos que o nosso estudo seja valorizado e referenciado devemos fazer uma descrição pormenorizada do trabalho desenvolvido, a credibilidade de um estudo qualitativo pode ser visto a partir do ponto de vista da fidelidade interna e externa.

A fidelidade externa relaciona-se com os dados e com a possibilidade de diferentes investigadores poderem obter resultados idênticos, ao de estudos anteriores, sobre o mesmo fenómeno. De acordo com Goetz e LeCompte (1994) os problemas que lhe estão associados são  cinco: o papel do investigador, escolha dos sujeitos, situações e condições sociais, definição e categorização dos dados e métodos de recolha e análise de dados.

O investigador deve descrever com muito atenção, qual o seu papel, as característica do sujeito e qual o critério de selecção dos mesmos. Por sua vez as situações e condições sociais podem interferir no tipo de informação revelada pelos sujeitos. O investigador deve ser discreto e não esquecer que a presença de outros indivíduos pode afectar o tipo de declarações efectuadas.
A categorização dos dados é fundamental – não devemos utilizar simples descrições –  para assegurar a integridade dos mesmos, estes devem ser estudados e criadas categorias analíticas antes de ser analisados.
O método de recolha e análise dos dados devem ser descritos com rigor, o pesquisador deve ter um quadro referencial que o determina e guia nessa tarefa. A credibilidade dos dados está estritamente ligada à clareza e à integridade das considerações de como os mesmos foram examinados e sintetizados (Goetz e LeCompte, 1994).

A fidedignidade interna relaciona-se com a concordância entre os observadores em relação à descrição dos eventos. De acordo com (Goetz e LeCompte, 1994), os investigadores qualitativos utilizam as seguintes estratégias para reduzir as ameaças à validade interna: descrições com baixa inferência, exame de pares e dados registados mecanicamente.

As descrições de baixa inferência relaciona-se com a recolha de dados, pode envolver a descrição das percepções do sujeito num cenário específico ou a representação das suas conversas.
O exame de pares envolve a colaboração de outros investigadores, o documento elaborado é revisto por especialistas naquela área.
Gravações sonoras, de vídeo e fotografias são um meio de avaliar a fidedignidade interna de um estudo qualitativo pois esses registos podem ser examinados e valorizados por outros peritos.

Alguns especialistas em pesquisa qualitativa quando abordam o conceito de fidedignidade destacam o conceito de validade, referem que a evidência da fidedignidade é desnecessária se a validade interna puder ser demonstrada, e ainda que é impossível ter validade interna sem fidedignidade.

Segundo Merriam (1988), citado por Coutinho (2005) a validade interna está relacionada com a questão de como as descobertas se compatibilizam com a realidade, esta é vista como holística, multidimensional e em constante mudança, a questão passa por saber se os dados obtidos “refletem” ou “traduzem” a realidade.
Na pesquisa qualitativa os efeitos do observador devem ter em consideração os contextos específicos. A descrição, honestidade e as relações pessoais construtivas ao longo do tempo irão melhorar a validade interna.

Lock (1989) alertou que devemos ser cautelosos com os sujeitos que ocasionalmente omitem factos ou não falam a verdade. Além disso o facto de várias pessoas dizerem o mesmo não significa que aquilo que é referido seja verdadeiro, a repetição de uma ideia não significa validade (Merriam, 1998).
O investigador deve colocar-se na posição dos sujeitos e, através da experiência, detectar os dados falsos.

Nos estudos qualitativos a questão da validade interna não é colocada de forma tão exaustiva como nos quantitativos, o pesquisador qualitativo procura estabelecer relações ou explicar os fenómenos, no entanto, ela “faz sentido em termos de credibilidade” (Vieira, 1999, citado por Coutinho 2005).

Merrian (1988) considerou seis estratégias básicas para a validade interna:

Triangulação
Verificação de plausibilidade ao se retomar os dados e interpretações para os sujeitos
Recolha de dados durante um longo período e observações repetidas
Exame dos colegas e avaliação das descobertas
Envolvimento dos participantes em todas as fases da pesquisa
Esclarecimento dos preconceitos e orientação teórica do próprio pesquisador no começo do estudo

A triangulação dos dados é utilizada para aumentar a validade e a fidedignidade por meio do emprego de fontes múltiplas de dados, diferentes investigadores e métodos variados. Na triangulação da teoria a situação é examinada a partir de pontos de vista teóricos e hipóteses diferentes.

Segundo Ghiglione & Matalon (1997), citado por Coutinho (2005), a validade externa está ligada à constituição das amostras e à sua representatividade. O problema da sua generalização é muitas vezes colocado em causa devido ao pequeno número de sujeitos e da falta de amostragem aleatória.

Tendo por base o trabalho desenvolvido por Coutinho (2005) existem duas formas de generalizar os resultados de um estudo qualitativo: a conceptualização (Punch, 1998) e o desenvolvimento de “hipóteses de trabalho” (Cronbach, 1982).
Na conceptualização o pesquisador está interessado em chegar a novos conceitos que expliquem qualquer aspecto específico.
Desenvolver “hipóteses de trabalho” significa, para o seu autor, que o investigador consegue avançar uma ou mais hipóteses novas que relacionem conceitos ou factores.

Outro argumento que favorece a validade externa neste tipo de pesquisa é o conceito de generalização feito pelo “usuário”.
Não é o autor do trabalho que faz a generalização, mas sim o leitor (Peshkin, 1993). Este avalia as descobertas do estudo e questiona que aspectos se aplicam à sua situação específica. A generalização feita pelo usuário “não é de nenhuma maneira uma medida inferior de validade externa” (Lock, 1989).

Guba e Lincoln (1994) e Mertens (1992), citados por Coutinho (2000) preferem usar a expressão transferibilidade para referir o conceito de generalização ou validade externa dos estudos quantitativos.

Conclusão

A pesquisa qualitativa não relata a evidência da validade e fidedignidade no sentido tradicional, por isso Kirk e Miller (1986) referem que, devido às suas características, este tipo de pesquisa deveria possuir conceptualizações diferentes de validade e fidedignidade.

O principal instrumento de pesquisa, é o investigador. Segundo Merriam (1980), o rigor de um estudo qualitativo deriva da presença do pesquisador, da natureza da interacção entre o pesquisador e os participantes, da triangulação dos dados, da interpretação das percepções e da descrição rica e abundante.

O debate acalorado entre investigadores que defendem a abordagem quantitativa e qualitativa parece continuar, contudo para nós o mais importante é, sem dúvida, aproveitar os pontos fortes de ambos os métodos. Esta combinação é, de facto, uma forma de triangulação que aumenta a validade e a fidedignidade de forma a responder às nossas necessidades diárias, quer como estudantes, quer como formadores.

5 Respostas to “Validade e Fidelidade na Investigação Educativa”

  1. Olá,

    É só para lhe dizer que o documento que acabei de ler ficou muito bom, pois dá mostras de quem entende bem do assunto que foi nele abordado. Parabéns!
    Contudo, gostaria de ver na parte final as referências bibliográficas consultadas.

    Saudações académicas,
    Euclides Furtado

  2. ricardo said

    boas,o meu nome é ricardo e estou a tirar um mestrado em multimedia em educaçao…vou incidir o trabalho sobre e-portefolios no primeiro ciclo do ens.basico nomeadamente na parte artistica….gostaria de recolher algumas informaçoes e trocar outras tantas se assim fosse possivel….fica o meu mail qq ajuda é bem vinda obrigados

  3. raka e cris e dancil said

    Euclides,tenho pena… mas já estamos a caminho de 2010 e não amanhaste uma resposta.É triste!
    Manda-a à fava… deve ter copiado e não se lembra de onde tirou os dados… isso dá cadeia.

    Em esperanças se acabam vidas! Feliz 2010!!!

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